A rodoviária naquele horário estava um tanto vazia, os bancos mais gelados que costumeiramente, como se o frio fosse protagonista daquela cena de despedida. Despedida de ninguém, sem aceno, sem lágrimas, sem sorrisos. Uma parte de seu passado ficava pra trás e a partir daquele momento ele nunca mais seria o mesmo. Quando voltasse já não mais seria “o filho da dona Norma”, seria conhecido e lembrado em cada canto. Até nos botecos os bêbedos mais deselegantes diriam com orgulho de terem o conhecido pequeno e muitos ainda jurariam serem o próprio padrinho do batizado de igreja do rapaz.
Seus pensamentos volitavam sem destino e sem porto de chegada, viajavam no passado e no futuro, reminiscências de tempos bons e ruins, de saudades, de lembranças que seria melhor se tivessem sido apagadas com o sopro do tempo, sem justiça e sem perdão.
Lembrou do banho de chuva tomado há cinco anos atrás, ele e Roque, seu amigo desde os tempos de escola, voltando da casa do Roger, amigo que tinha todos os discos antigos que gostava. A chuva os tomou por assalto, pensaram em correr, mas o sentimento de felicidade plena, sem motivo, pairava no ar e decidiram somente caminhar. A chuva era torrencial, como que beijando seus rostos, lavando as vicissitudes de suas almas. Sorriam pelo fato de ser, existir, estar. Desejavam que aquele momento nunca mais terminasse, que o tempo fosse pausado e pudessem prosseguir quando quisessem. Naquele momento eram abençoados com a coroa dos não-sérios, dos loucos que perambulam pelas ruas e se permitem serem felizes sem se adequar a nenhuma regra ou convenção, dos que realmente fazem a roda do mundo girar, daqueles que não procuram e sempre encontram, dos corajosos que não temem olhares julgadores, de quem sabe que a vida é um eterno teatro sem platéia, onde somos diretores e protagonistas, onde escolhemos o restante do elenco, numa apresentação que reúne drama, comédia, tragédia e principalmente as experiências que tivemos no decorrer dos dias, que iremos passar pros nossos filhos, que irão passar pros seus filhos, que irão passar pros..... Aí ficava o verdadeiro embate de suas idéias, ser o exemplo idealizado e imposto pela sociedade, corroborando com os padrões de regras inconsciente e previamente estabelecidas ou partir para o mundo real, o mundo que poucos conhecem, dos sonhos impossíveis, dos artistas e dos autistas, a vida como ela não deve ser, das frases sem aparas, dos beijos sem tempo nem medida, o mundo de quem nunca foi e nem nunca será!
A chuva cessou...não seus sentimentos, as lembranças ficaram pra sempre.
Dias depois Roque rompeu seu cordão de prata ao colidir sua bicicleta... como qualquer um que morre foi egoísta e deixou seu amigo chorando, só para confirmar as promessas dos padres e das religiões...
O ônibus encostou e deu tempo dele enxugar uma última lágrima, que escorria em direção ao seu lábio.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
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