Acordou num dia de sol, ano de 1985, colocou uma fita k7 do Rod Stewart no 3 em 1, não sabia o porquê, mas o brilho do sol era muito mais intenso naquela época, a vida tinha uma outra cor.
Levantou sem muita pressa, tomou um café com bolacha Maria e foi caminhar.
Na rua um opala passou sem pressa alguma e logo depois viu uma Brasília cheio de rapazes indo para a festa da igreja.
Passou por uma ponte, por cima da valeta e entrou na casa do Ivan, que estava como sempre com o portão aberto.
Lá dentro um cheiro maravilhoso do bolo de fubá que sua mãe fazia no fogão de lenha.
- Bom dia Dona Irene!
- Bom dia menino. O Ivan está no quarto dele, pode entrar.
Ele estava escutando um LP do Ray Coniff e cuidando de suas figurinhas do Zequinha.
- Senta aí.
Sentou naquele lençol azul todo desenhado e ficou olhando as figurinhas: “Zequinha repórter”, “Zequinha na Santos Andrade”...
Falou:
- E então Ivan, vamos jogar bola? A pracinha já está cheia da piazada!
- Não sei...eu prometi pro Adriano que iria soltar raia com ele hoje.
- Ah...vamos? Minha mãe me deu dinheiro pra tomar um dolé!
- pode ser...você vai levar a bola de capotão?
- vou. Olha, vou jogar com meu kichute novo!
- Caramba! Novinho! Tua mãe deixou?
- Ela disse que desde que eu lave no tanque pra ir à escola segunda não faz mal.
Os dias passavam numa velocidade diferente, as pessoas tinham outro ritmo.
As cores eram mais vibrantes e até a fragrância no ar, aquele cheiro do chá tarde entorpecia.
Os pais ainda ficavam olhando seus filhos brincarem e os filhos ainda gostavam de ficar perto dos pais.
Vizinhos reuniam-se nas ruas no entardecer. Nas tardes de verão, a cumplicidade era geral.
As crianças brincavam nas ruas até tarde da noite e quando entravam ainda ganhavam um sorriso e um comentário: - Brincou hoje em meu fiho? Toma um banho e vem comer que já vai começar o “Bem Amado”.
Nos Domingos o costume era a macarronada no jantar com os pedaços de churrasco que sobraram requentados na frigideira, a maionese quase branca e claro, os Trapalhões, nos dias em que o Didi se vestia de mulher, imitando a Joana ou a Maria Bethânia o riso era geral. Depois não podia perder a zebrinha do Fantástico e por último antes de dormir pedir a benção para a mãe e para o Pai. Tinha o costume de dormir virado para o lado do quarto deles.
O Sábado era todo especial.
Acordar com o som de agepê, as irmãs encerando o chão. ÊÊÊ menina dos cabelos longos...
As samambaias pareciam que sabiam que era sábado e ventavam transmitindo vida.
O pai enchendo o pneu da bicicleta: Pega a bomba guri.
A mãe no tanque e na cozinha ao mesmo tempo, cheiro de Qboa numa mão e de tempero de feijão na outra. Filho: Vê se não come essa 7 belo antes do almoço e o cigarrinho de chocolate guarda pra amanhã que vem teu primo. O iogurte era sagrado na hora do sítio do pica-pau amarelo.
Filho, traz a tábua do tanque pra mim e me ajuda a lavar o Bamba senão segunda você vai de sandália pra escola!
Cresceu ouvindo Sailing do Rod Stewart. Ficava olhando pela janela a chuva que caía lá fora, a fumaça que saía da boca formava figuras na vidraça, ficava marcada com a lã da touca que a mãe fazia.
O inverno em Curitiba sempre foi maravilhoso. Falar e sair fumaça da boca era o máximo. Depois respirar o ar gelado da manhã quando ia pra escola. Os bancos gelados, escrever com luva era uma dificuldade. Compensava e muito o lanche, macarrão com almôndegas naquele copo azul de plástico.
O único pensamento naquela época era brincar. Ouvir música e brincar.
Desde pequeno tinha uma queda enorme pela música, desde roberto, passando por Beatles e tudo mais que se ouviu nos 80, a última geração de felicidade que existiu naquela cidade. E foi exatamente a música a responsável por tudo em sua vida, as tristezas e a felicidade.


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