Pontal do Sul - Sete horas da manhã - O começo de tudo
Ele não tinha destino, nem mesmo quando deixou sua cidade sabia aonde iria parar. Se é que queria parar.
Foi andando pela linha do trem e sentia o aroma forte de café vindo das casas ribeirinhas dos trabalhadores da estiva.
Seu pensamento era só um, deixar tudo pra trás e começar a viver.
Tinha nos bolsos alguns trocados e nenhum documento. Uma mochila com duas mudas de roupas e um pacote de bolachas.
No peito carregava a coragem dos vitoriosos, dos homens que são mais que homens de dias comuns, fazia parte daqueles que não temiam o mundo, dos que vieram para conquistar e não para ser esquecido.
O dia ainda não tinha amanhecido quando chegou à estação.
Sentiu a liberdade aflorando, afinal naquele momento poderia fazer o que quisesse e ir pra onde desejasse, sem ter que explicar a alguém ou telefonar, dar qualquer sinal.
A partir daquele momento era um homem livre dentro de si mesmo e ele mal podia se conter com essa emoção.
Começou a andar pelas ruas e pela primeira vez observava que nas ruas ainda tinham pássaros e que podia após tantos anos ouvir seu canto.
Reparou num velho sentado na mesma cadeira de 20 anos atrás, desde quando ele era criança via aquele homem. E lembrou de nunca ter visto emoção alguma naquela face. O Velho fez tudo certo, criou os filhos, trabalhou, amou sua mulher, mas agora nada mais é preciso. Só basta esperar. Esperar o dia de partir, do choro dos filhos, lágrimas penosas em cima de um corpo que será esquecido na primeira primavera que vier, lembrado em dias festivos somente pelos mais chegados. A mulher dele irá se sentar naquela cadeira e será a vez dela esperar. E ela irá esperar com certo prazer disfarçado.
Seus pensamentos foram dispersos quando lembrou de que o mesmo poderia acontecer com ele, seria fácil, bastava sentar e esperar.
Olhou mais uma vez em direção ao sol e lembrou que para ele o brilho era mais intenso do que para o resto das pessoas e aquele brilho iria levá-lo a lugares nunca imaginados.
Sentia uma amargura em deixar a cidade onde viveu toda a sua vida, ao mesmo tempo em que desejava atravessar mares, montanhas, conhecer pessoas e lugares.
Pela última vez passou em frente à casa de sua primeira e única namorada. Lá dentro a luz já acesa indicava que ela ia cumprir seu destino, dar aulas na única escola da cidade. Lembrou de quando segurou em sua mão pela última vez e disse que poderia aguardar seu pai autorizar o namoro para sempre. Passaram anos, o homem morreu, ela se casou com o barbeiro e seus sonhos foram desviados. Para o bem dele o destino não deixou que ficassem juntos, pois ele perderia toda emoção que a vida reservava para ele e provavelmente mais tarde ele estaria também sentado numa cadeira na varanda...esperando...

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